
NOTA: Resolvi "inaugurar" meu blog com esse texto de minha autoria. Com ele, participei de um concurso de crônicas no início dos anos noventa (se não me engano) promovido pela Secretaria Municipal de Educação da cidade do Rio de Janeiro. Apesar de não lembrar bem o ano, lembro do prazer que tive em participar de um concurso de crônicas batizado com o nome ilustre de Stanislaw Ponte Preta... Nosso querido Sérgio Porto (cronista, escritor, radialista e compositor brasileiro), o autor de FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País. (IMAGEM DO LIVRO ACIMA)
Depois de tantos anos, foi necessário atualizar o texto de "Dona Apparecida". Mas acredito ter conseguido manter a essência.
Dona Apparecida
De boca em boca, a notícia foi se espalhando por todo o bairro.
- Gente! Dona Aparecida... Desapareceu!
- Mas como?
- Sei não. Acho que foi macumba. - Disse uma vizinha fofoqueira.
Saber mesmo o que aconteceu, ninguém sabia. Mas arriscavam.
- Deve é ter arrumado um homem, dona Jacira.
- Mas naquela idade?
- E o que é que têm! "Tá" viva, não "tá"?
Não levou muito tempo para a vizinhança começar a sonhar com dona Apparecida, interpretar o sonho e jogar no bicho.
Um caso que merece destaque é o do Betinho, um baixinho que trabalhava no boteco do Raimundo. Certa tarde ele contava, muito feliz da vida, que tinha ganhado uns trocados jogando na borboleta. Havia sonhado com dona Apparecida, no alto de um carro alegórico da Renascer de Jacarepaguá (escola de seu coração), sambando muito animada e sendo aplaudida por todos.
Nesse momento, Carlão (mestre de capoeira), filho de dona Apparecida perguntou:
- Ué! E a borboleta?
- "Tava" toda de fora! - Respondeu o sorridente Betinho (até hoje hospitalizado).
Dias se passaram sem que ninguém soubesse o paradeiro da dona da "borboleta" mais comentada do Pechincha.
Desesperados, seus sete filhos decidiram apelar para as autoridades competentes. Tal atitude, com certeza, desagradaria dona Apparecida. Como ela mesma dizia:
- Delegado que é delegado, "tá" sempre com os ovos virados. Quando sorri é por que vai dar porrada... ou então porque não têm os ovos.
O delegado de plantão era o doutor Paulo Simpatia. Um sujeito calmo e atencioso. Segundo diziam as línguas mais venenosas das comadres, sofreu um terrível e viril acidente de trabalho quando ainda era detetive (sábias palavras de dona Apparecida).
Na delegacia, tudo estava muito calmo. Nenhuma ocorrência de grande gravidade até a entrada singular dos filhos da boa senhora, aos gritos e empurrões. Todos querendo falar ao mesmo tempo:
- Delegado, delegado. A minha mãe...
- Dele só não!
- O nome é Apparecida Pereira da Silva.
- Apparecida com dois "p".
- Aonde é o banheiro?
Não é nem necessário falar que a calma do delegado acabou. Como também acabou o velho boato da "virilidade perdida" (tudo bem, ninguém acreditava mesmo nessa fofoca!).
O delegado parecia possuído pelo "cão". Em toda a delegacia era possível ouvi-lo gritar:
- Cala a boca, se não eu mando prender um.
Marcinho, filho caçula de dona Apparecida, se coloca à frente e começa um bate boca com o delegado.
Marcinho é valente! Filho de Iançã, militante de movimento LGBT, ativista político muito conhecido e respeitado por aqui.
O delegado (já fora de si) resolve dar ordem de prisão.
- Mete esse pederasta na jaula.
Nesse momento, o doutor Joel, um advogado de porta de xadrez muito conhecido na Baixada de Jacarepaguá (não por causas ganhas, mas pela espetacular feijoada servida em sua casa com roda de samba aos domingos), entra na sala, olha ao redor (com um ar de superioridade), respira fundo e diz em alto e bom tom o que ficaría na memória de todos.
- Doutor delegado. Meu cliente não é pederasta, nem pedetista e nem petista... É bicha, mas não é de esquerda! (Sabe lá o que ele queria dizer com isso).
A confusão aumenta.
- Seu cliente é o cacête.
- Homofóóóóbico!
- Não é de esquerda, não é de esquerda... (Coitado! Ele insistia.)
- Me larga, me larga.
- Cala a boca.
- Cadê o banheiro? Cadê o banheiro?
Em fim, tudo se resolve sem que ninguém acabe preso. É registrado o sumiço de dona Apparecida. A única coisa a fazer agora seria esperar notícias da polícia.
Um mês já havia se passado, sem uma única pista de dona "Desapparecida" (como já estava sendo chamada na rua).
- Mamãe não está mais entre nós! - Diz Marcinho, desmanchando-se em lágrimas.
Carlão então resolve organizar o funeral. Diz que tudo deve ser muito bonito, pois, sua mãe merece.
- Será o enterro mais luxuoso de toda Jacarepaguá. Vai ter flores, homenagens, velas perfumadas, incenso...
- Mas e a defunta? - Pergunta o noivo de uma das irmãs de Carlão.
O rapaz não é mau sujeito, mas é do tipo que espera você esquentar o braseiro para dizer que o gato fugiu.
Carlão estufa bem o peito e responde com ar de superioridade.
- Grandes pessoas desaparecidas tiveram um enterro simbólico.
- Quem por exemplo? - Mala é mala.
Carlão pensa, mas é inevitável e o pau come.
- A vaca da sua avó.
- Me solta! Me solta!
- Enterra a tua mãe então.
- Ao menos A MINHA vai estar lá.
- Quero ir ao banheiro...
Chega afinal o dia do funeral. Com exceção do caixão, que foi dado por um político da região (em memória a sua melhor cabo eleitoral e mais antiga baiana da escola de samba), tudo foi muito simples. Apenas uma vela acesa na mesa e um pequeno arranjo de flores.
- Aonde estão as velas perfumadas e etc?
Foi uma pena dona Apparecida não estar presente em seu próprio velório. A resposta do Carlão (em alto e bom tom) estava levantando até defunto.
Talvez o clima de tensão não estivesse tão grande se, na capela ao lado, familiares de outro defunto (presente em seu enterro), não estivessem tão bêbados. Mais parecia uma festa. Todos cantavam, dançavam e faziam o caminho (em trenzinho, eu juro!) da capela para o boteco, do boteco para a capela.
Para piorar, (como já dizia o ditado: "O diabo quando não vêm, manda o secretário") alguém do velório festivo passou na capela de dona Apparecida para reivindicar o pequeno arranjo de flores.
- Esse arranjo de flores é do meu tio Beto.
- Não é não.
A moça decide levar "na marra".
- Essa bosta vêm comigo.
- A bosta do arranjo fica (grande defesa!).
- Vou dar tiro.
- Vai nada.
- Mato um.
- Banheiro, banheiro!
Tudo acabaria em mais velórios, caso não entrasse em cena a polícia baixando o cacête e mandando cada um seguir seu enterro. Caso o contrário todos seríam presos, incluindo os defuntos.
- Falando nisso, cadê o defunto daqui? - Perguntou um dos policiais.
A história estava sendo explicada quando uma das filhas de dona Apparecida dá um grito e desmaia.
- MAMÃE.
Para a surpresa de todos, dona Apparecida estava lá, no velório do tio Beto (que deus o tenha), vivinha da silva, completamente bêbada e viúva pela segunda vez. A confusão foi tão grande que ninguém tinha notado a presença dela até aquele momento.
Pode acreditar! Dona Apparecida explicou aos filhos que, andando pela feira do Barro Vermelho, encontrou o Beto (isso mesmo, o tio Beto) e foi amor a primeira vista. Perceberam, naquele momento, entre tomates e bananas, que nasceram um para o outro e não poderíam separar-se jamais. Ela queria contar para os filhos, mas não sabia como.
Tudo explicado. Só que a história não sensibilizou ninguém e o pau comeu... De novo.
- Mãe desnaturada!
- Cachorro...
- Todo mundo em cana.
- Vou dar tiro.
- Cadê o banhei... Agora deixa para lá.